El Niño 2026: verdades, avisos e rumores desvendados

Monitoramento climático deve orientar planos de prevenção no RS diante da possibilidade de formação do El Niño em 2026. Crédito: Defesa Civil RS / Divulgação

A possibilidade de formação de um novo El Niño em 2026 colocou órgãos de monitoramento, Defesa Civil e setores produtivos em alerta. Mas nem tudo o que circula sobre o fenômeno já pode ser tratado como fato.

Até agora, os dados indicam aquecimento rápido do Oceano Pacífico, tendência de El Niño entre o inverno e a primavera e maior probabilidade de chuva acima da média no Sul do Brasil.

Isso não significa, porém, que uma enchente como a de 2024 vai ocorrer. A repetição de um desastre depende de uma combinação de fatores que não pode ser determinada com meses de antecedência.

O que é fato

O El Niño é um fenômeno climático associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial.

Em condições normais, os ventos alísios empurram águas quentes em direção à Ásia e à Oceania. Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem ou mudam de comportamento, permitindo que águas mais quentes avancem para o centro e o leste do Pacífico.

Essa mudança altera a circulação atmosférica e pode influenciar padrões de chuva e temperatura em várias regiões do mundo.

No Brasil, os efeitos variam conforme a região. No Sul, episódios de El Niño costumam aumentar a chance de chuva acima da média, tempestades, granizo e eventos de precipitação extrema, especialmente na primavera.

No Norte e no Nordeste, o padrão mais comum é de redução de chuva, com risco de seca, incêndios florestais, ondas de calor e impactos sobre populações vulneráveis.

Também é fato que os modelos climáticos apontam alta probabilidade de formação do fenômeno em 2026. O boletim mais recente do Climate Prediction Center, da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), indicava status de El Niño Watch, com condições ainda neutras no sistema ENOS (El Niño-Oscilação Sul), mas com 82% de chance de surgimento do El Niño entre maio e julho de 2026 e 96% de chance de continuidade entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027.

No Brasil, nota técnica conjunta de INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), Funceme (Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos) e Censipam (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia) apontou alta probabilidade de estabelecimento do El Niño ao longo do segundo semestre de 2026, com possibilidade de persistência até o início de 2027.

O que é alerta

O alerta principal é que o Rio Grande do Sul tende a ficar mais vulnerável caso o El Niño se consolide e ganhe força na primavera.

Conforme dados apresentados ao governo estadual, modelos meteorológicos indicaram rápido aquecimento do Pacífico e probabilidade de 83% de que a temperatura fique entre 1,5°C e 2°C acima da média. Esse patamar seria comparável ao evento de 2015/2016, que provocou cheia no Guaíba e no Interior gaúcho.

O Comitê Científico de Adaptação e Resiliência Climática do Estado avaliou que há possibilidade de chuva acima do normal na primavera de 2026. Ou seja, entre outubro, novembro e dezembro.

O documento, porém, indicou que ainda não há evidências de que o fenômeno atinja intensidade forte ou muito forte em 2026 e 2027. Também não há indicação concreta de eventos extremos de chuva como os registrados em 2023 e 2024.

O que ainda é incerto

A intensidade do El Niño ainda não está fechada. Há modelos meteorológicos que indicam possibilidade de intensidade moderada a forte. Outros materiais citam chance de evento forte ou muito forte, expressão muitas vezes traduzida como “Super El Niño”. Ainda assim, a confirmação depende da evolução das anomalias no Pacífico e da persistência do acoplamento entre oceano e atmosfera.

Também não é possível apontar, com meses de antecedência, quais cidades terão enchentes, enxurradas ou alagamentos.

Previsões sazonais indicam tendências para meses ou trimestres. Elas não funcionam como previsão de tempo para um bairro, uma cidade ou uma bacia hidrográfica em uma data específica.

Os eventos extremos dependem de outros fatores, como bloqueios atmosféricos, frentes estacionárias, ciclones extratropicais, aquecimento do Atlântico, solo encharcado, condição dos rios, drenagem urbana, ocupação de áreas de risco e capacidade de resposta local.

O que é boato ou exagero

É exagerado afirmar que o El Niño já garante uma repetição da enchente de 2024 no Rio Grande do Sul.

O governo estadual afirmou que não há, até o momento, indicação concreta de um evento semelhante ao de 2024. A leitura oficial é de atenção para eventos severos pontuais, como chuvas intensas, alagamentos, enxurradas e tempestades.

Também é incorreto tratar todo o Brasil como se fosse afetado da mesma forma. O Sul tende a ter maior risco de chuva acima da média. O Norte e o Nordeste tendem a enfrentar maior risco de seca. O Centro-Oeste e o Sudeste podem ter impactos mais variáveis, com calor, irregularidade de chuva e efeitos sobre a agricultura.

Outra simplificação é afirmar que chuva acima da média significa enchente certa. O risco aumenta, mas o impacto depende da concentração da chuva, da duração do evento, das bacias atingidas, da infraestrutura e da resposta das autoridades.

Preparação no Estado

Como o Agora RS noticiou, o governo do Rio Grande do Sul decidiu antecipar reuniões com cerca de 60 municípios considerados mais vulneráveis a impactos climáticos.

A lista foi definida a partir de histórico de eventos extremos e análises técnicas de meteorologia, hidrologia e geologia. A proposta é apresentar diagnósticos personalizados sobre áreas vulneráveis e alinhar protocolos de preparação e acionamento de planos de contingência.

O Estado afirma que os 497 municípios gaúchos têm planos de contingência estruturados para preparação e resposta a eventos climáticos extremos.

A Defesa Civil também diz ter ampliado em quatro vezes o efetivo técnico. Um radar meteorológico já opera em Porto Alegre, e outros três foram contratados, com previsão de entrada em operação nos próximos meses.

O Estado também afirma usar modelagem hidrodinâmica para projetar o comportamento de rios em áreas com maior risco de inundação. As manchas de inundação dos 60 municípios mais vulneráveis já estariam mapeadas em diferentes níveis de alcance conforme a elevação prevista dos rios.

Os municípios estão se preparando?

O Agora RS procurou 20 municípios gaúchos para saber como as prefeituras estão se preparando diante da possibilidade de formação de um novo El Niño em 2026.

Foram questionadas cidades com histórico de impacto por enchentes, enxurradas, alagamentos ou maior exposição a eventos climáticos extremos, entre elas Porto Alegre, Canoas, Eldorado do Sul, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Lajeado, Estrela, Muçum, Encantado, Roca Sales, Santa Maria, Pelotas, Rio Grande, São Sebastião do Caí, Montenegro e Taquari.

As perguntas enviadas buscavam entender os planos de contingência, quais áreas eram vulneráveis, abrigos, rotas de evacuação, formas de alerta à população, se ocorreram simulados, orientações da Defesa Civil Estadual e quais eram as necessidades ainda existentes para melhorar a prevenção e a resposta.

Apenas Santa Maria e Rio Grande responderam aos questionamentos.

Santa Maria aponta avanço em capacidade de resposta

Uma das duas cidades a responder os questionamentos do Agora RS, Santa Maria informou que mantém planos de contingência atualizados para desastres naturais e tecnológicos.

O município também desenvolveu o Plano de Rotina Operacional, ferramenta preventiva baseada no monitoramento de indicadores, previsões hidrometeorológicas e empreendimentos cujo sinistro possa afetar a normalidade local.

Conforme a prefeitura, Santa Maria passou do nível C para o nível A no Indicador de Capacidade Municipal entre 2024 e 2025. O município também afirma ter desenvolvido um portal digital para avaliação de riscos, cadastro de pessoas afetadas, solicitação de documentos e inscrição de voluntários.

As áreas de maior risco geológico incluem Cechela, Santa Tereza, Bilibiu, Canudos, Arroio Lobato e Três Barras. Já os riscos hidrológicos se concentram nas margens dos arroios Cadena e Três Barras e nas bacias dos rios Vacacaí e Vacacaí-Mirim.

Santa Maria informou ainda ter mais de seis abrigos previamente mapeados, planejamento para abrigos emergenciais e temporários, e previsão de acolhimento de pessoas junto com animais de estimação.

O município também informou que realizará em junho um simulado de desocupação por rompimento de barragem voltado à população localizada na mancha de inundação.

Rio Grande atualiza plano de contingência

Em resposta ao Agora RS, a Prefeitura de Rio Grande informou que iniciou em outubro de 2025 a atualização do Plano de Contingência, com acompanhamento técnico da Defesa Civil Estadual.

O plano está em fase final e deve ser publicado nos próximos dias. A prefeitura afirmou que o documento conta com tecnologia digital Twin do Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos da FURG, capaz de antecipar cenários e prever áreas atingidas.

As áreas de risco para inundação incluem as ilhas da Torotama e dos Marinheiros, além de bairros no entorno da lagoa, tanto na orla norte quanto na orla do Saco da Mangueira.

O novo plano prevê abrigos para pessoas e animais. A Universidade Federal do Rio Grande está entre os locais definidos, com ampla capacidade.

O município também informou que receberá no próximo mês um grande simulado em construção com a Câmara Técnica da Azonasul, a Coordenadoria Regional de Proteção e Defesa Civil, órgãos de meteorologia e a FURG.

Entre as ações em andamento, Rio Grande citou ampliação de servidores efetivos na Defesa Civil, aquisição de equipamentos e EPIs, boletins meteorológicos em parceria com o CIEX-FURG, limpeza de canais e tubulações, além de projetos de contenção contra enchentes e alagamentos.

Agricultura também monitora riscos

O setor agrícola acompanha o cenário porque o El Niño pode alterar chuva, temperatura e janelas de operação no campo. O excesso de chuva no Sul pode afetar qualidade dos grãos, aumentar pressão de doenças, dificultar colheita e reduzir janelas de plantio e pulverização.

No Centro-Oeste, o risco tende a estar mais ligado à irregularidade das chuvas, oscilação térmica e dificuldade de manter padrão produtivo uniforme. No Norte e em parte do Nordeste, o estresse hídrico pode ganhar peso.

Para produtores de arroz no Rio Grande do Sul, o tema já entrou no planejamento da safra 2026/2027. Em seminário técnico do IRGA, especialistas alertaram para a transição entre neutralidade e El Niño e para a necessidade de acompanhar a intensidade do fenômeno nos próximos meses.

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By Fato ou Fake Canoas

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